• Alan Coletto

O que ninguém percebeu em “House of Gucci”


(Getty images – Jared Leto [ Paolo], Al Pacino [Aldo], Patrizia [Lady Gaga], Adam Driver [Maurizio] e Jeremy Irons [Rodolfo]).


Esta parece uma manchete de magazines de moda. Com todo respeito ao trabalho destes periódicos, mas é exatamente aí que está escondido aquilo que não se percebeu: O filme não é sobre Moda!


Recentemente foi lançado o filme “House of Gucci” (Casa Gucci, no Brasil), de Ridley Scott, com elenco de segurar qualquer um sentado na cadeira por 2 horas e 40 minutos assistindo aos oscarizados Lady Gaga, Al Pacino, Jared Leto, Salma Hayek, Jeremy Irons e Adam Drive, interpretando a história de uma das mais famosas “maisons” de moda do mundo.


O que poucos viram foi Domenico de Sole: O advogado que age em segundo plano durante todo o filme, até culminar na ocupação do cargo de CEO da marca Gucci, ao dar a cartada que deu, contra o herdeiro da Casa Gucci, Maurizio.


Não se quer, aqui, entregar “spoilers”, mas chamar a atenção, dos que assistiram ou dos que ainda vão, para um detalhe: TRATA-SE DE UM FILME DE DIREITO DA MODA!


(Getty images – Tom Ford e Domenico de Sole)


Domenico é o cerne de toda a história da marca Gucci, na vida real e no filme: O advogado. A intricada história da dinastia Gucci, fundada por Guccio Gucci, é marcada por relações (e escândalos) jurídicos. E nesta cinebiografia, de um crime real, se pode encontrar:


1) O polêmico casamento (contrato) de Maurizio Gucci e Patrizia Reggiani (não apoiado pelo pai do rapaz, Rodolfo [filho de Guccio] por ser de família abastada e colocar o patrimônio da família Gucci em cheque, ao unir-se a uma senhorita humilde);


2) Caso dos Direitos Autorais de Paolo Gucci (neto de Guccio e filho de Aldo Gucci) que foram confiscados pela empresa (quando ele tentou lançar linha própria), o que acabou gerando disputa com a marca (e até mesmo a traição familiar entre Patrizia, Maurizio e o primo, Paolo), que o tiraram da empresa, comprando suas ações, após encurralá-lo judicialmente;


3) A Prisão de Aldo (filho de Guccio) por fraudes tributárias e evasão fiscal, tendo sido entregue às autoridades pelo filho, Paolo, pois ele não o deixava desenhar para a marca, gerando um escândalo midiático;


4) Negociações e disputas comerciais (conflitos contratuais, societários e de cotas empresariais) dentro da família e, depois, com os novos sócios estrangeiros, além das discordâncias dentro da sociedade;


5) A fraude na partilha de bens de Rodolfo, quando Patrizia falsifica sua assinatura para burlar o pagamento de tributos e a venda das cotas, e realiza sua sucessão patrimonial ao herdeiro;


6) As irregularidades (mesmo considerando as variáveis da lei local) na sucessão de Aldo, ainda em vida, quando preso, ao ter suas cotas vendidas por Paolo;


7) O processo de divórcio de Maurizio e Patrizia, com divisão de bens e guarda da filha Alessandra Gucci;


8) A fuga da prisão de Maurizio quando buscado por operação policial, enquanto Patrizia descobre ter sido observada pelo advogado durante todos estes episódios, conforme ia “encabeçando” a empresa;


9) O forte apelo sexual trazido por Tom Ford, que gerou polêmica e disputa pesada entre holdings de luxo.


Tudo estava orquestrado pelo advogado Domenico de Sole, não porque se corrobora alguma imagem de advogado que se envolva em polêmicas, mas porque seu mal caráter uniu-se a uma variável importante: conhecer o Direito.


Ao perceber que Patrizia agia de forma a dominar os negócios da Gucci, Domenico, por ser conhecedor do Direito (e daí a importância de se falar em direito empresarial na moda), acabou por desenhar um grande golpe à marca, ocupando sua direção.


Patrizia Reggiani foi uma oportunista que, em clássica manobra de “dumping” social, casou-se com o herdeiro da Casa Gucci, Maurizio, mas que veio a planejar seu assassinato após “ressuscitar” a “maison” que estava fadada ao fracasso (pela família e pelo “design”) e, mesmo assim, ter sido rejeitada pelo esposo.


Indo de operária a mafiosa socialite, Patrizia ilustra o ápice jurídico da história legal da Gucci, ao ser julgada a 29 anos de prisão (em 1995), pelo assassinato de Maurizio Gucci, com quem fora casada por 12 anos. Com ela, houveram outros quatro condenados e outros desenrolares processuais.


Em 2016, na vida real, ela deixou a penitenciaria por bom comportamento (mesmo tendo negado a condicional em 2011, pois teria de trabalhar. O que ela nunca fez e não aceitou fazer). Atualmente, 26 anos após o crime, ela mora em Milão, onde vive normalmente.


Apesar de se tratar de grande filme, os herdeiros de Aldo Gucci se ofenderam com as filmagens, publicaram carta na imprensa italiana e ameaçam tomar medidas judiciais por acreditarem que seus parentes foram tratados como “ignorantes” e pretendem proteger o nome e imagem da família.


Desde 1990, contudo, quando aberta a sociedade, a família não está mais envolvida com a marca, hoje, de propriedade do grupo francês Kering. A curiosidade é que Salma Hayek, atriz do filme, é esposa do proprietário desta empresa, detentora da Gucci.


O filme foi baseado no livro “A Casa Gucci: Uma sensacional história de assassinato, loucura, glamour e ambição” de Sara Gay Forden e conta a história da marca fundada por Guccio Gucci, que ficou famosa por vender escassos produtos em couro após os embargos da segunda guerra mundial, na Itália, até se tornar uma das grifes mais importantes do mundo contemporâneo.